A próxima geração da borracha natural pode não vir apenas das seringueiras
A busca por novas fontes de borracha natural ganhou um novo capítulo com o avanço de pesquisas envolvendo uma planta pouco associada à indústria: o dente-de-leão russo (Taraxacum koksaghyz). Cientistas têm estudado a espécie como uma alternativa complementar à seringueira (Hevea brasiliensis), principal fonte mundial de borracha natural, em um cenário marcado pelos impactos das mudanças climáticas, doenças agrícolas e riscos na cadeia global de fornecimento.
A borracha natural possui características únicas de resistência, elasticidade e dissipação de calor, que fazem dela uma matéria-prima essencial para aplicações como pneus de veículos pesados, aeronaves e equipamentos médicos. Atualmente, grande parte da produção mundial está concentrada no Sudeste Asiático, especialmente em países como Tailândia e Indonésia, o que aumenta a vulnerabilidade do setor diante de possíveis interrupções no fornecimento.
Uma alternativa resgatada da Segunda Guerra Mundial
Apesar de parecer uma novidade, a utilização do dente-de-leão russo para produção de borracha tem origem em uma estratégia desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, cientistas soviéticos identificaram que as raízes da planta, originária das estepes do Cazaquistão, produziam um látex adequado para fabricação de borracha natural.
Com o fim do conflito e a retomada do comércio internacional, o cultivo da planta perdeu espaço para a expansão das seringueiras tropicais. Décadas depois, novas tecnologias de melhoramento genético e cultivo controlado permitiram que pesquisadores retomassem essa possibilidade.
Um projeto desenvolvido no Reino Unido trabalha no aprimoramento da espécie para aumentar sua produtividade, utilizando variedades selecionadas com raízes maiores e maior capacidade de produção de látex.
Cultivo sem solo e com menor impacto ambiental
Uma das principais inovações do projeto está no sistema de cultivo utilizado. As plantas são cultivadas em ambientes controlados, sem solo, por meio de uma tecnologia aeropônica, na qual as raízes ficam suspensas e recebem uma névoa com água e nutrientes.
O modelo reduz o consumo de água, diminui a necessidade de defensivos agrícolas e evita impactos associados à expansão de grandes áreas de cultivo, como o desmatamento de regiões tropicais para novas plantações de seringueira.
A expectativa inicial dos pesquisadores é alcançar uma produção de aproximadamente 3 mil toneladas de borracha natural por ano. Embora ainda represente uma pequena parcela da demanda global, a iniciativa já demonstra potencial comercial. Na Alemanha, pneus de bicicleta foram produzidos utilizando borracha extraída exclusivamente do dente-de-leão russo, comprovando a qualidade do material.
Diversificação da cadeia produtiva da borracha
A possibilidade de produzir borracha natural fora das tradicionais regiões tropicais pode representar uma mudança importante para o setor. Países com clima temperado ou semiárido, que atualmente dependem da importação da matéria-prima, podem encontrar no dente-de-leão uma alternativa para desenvolver novas cadeias produtivas.
Para a indústria da borracha, a diversificação das fontes de látex representa uma estratégia para reduzir riscos, ampliar a segurança do abastecimento e estimular o desenvolvimento de tecnologias mais sustentáveis.
Embora a seringueira continue sendo a principal fonte de borracha natural no mundo, pesquisas como essa mostram que o futuro da matéria-prima pode envolver diferentes espécies, tecnologias e modelos de produção.
Fonte: The Guardian
Imagem: Canva