Renascimento da borracha põe economia sustentável de pé na Amazônia

Com o nascer do sol na ilha de Marajó (PA), seringueiros retomam um ofício que marcou a história econômica da região. Entre eles está Renato Cordeiro, que, munido de botas e faca, inicia o processo de extração do látex, principal matéria-prima da borracha e fonte de sustento para sua família.
O ressurgimento da atividade seringueira trouxe uma nova dinâmica para a economia local, gerando empregos e promovendo a conservação da floresta. Esse movimento foi impulsionado por uma iniciativa da empresa Seringô, que permitiu a mais de 1.500 trabalhadores voltarem a extrair látex para a fabricação de produtos como calçados, ao mesmo tempo em que preservam a vegetação nativa.
A floresta como herança
Renato Cordeiro, de 57 anos, vive em uma palafita às margens do rio Anajás, cercado por seringueiras nativas e outras espécies da flora amazônica. Ele relembra ter começado no ofício ainda criança, aprendendo a riscar as árvores para extrair o látex sem comprometer sua sobrevivência.
O processo de produção segue um ritual cuidadoso: após realizar as incisões na casca da seringueira, a seiva é recolhida e misturada com vinagre, formando uma massa esbranquiçada que seca ao longo de dez dias antes de ser vendida à Seringô. O seringueiro destaca o orgulho por retomar essa atividade, que define como essencial para a manutenção da floresta e do modo de vida local.
Preservação e desafios
A retomada da extração de borracha na Amazônia ocorre em meio a desafios como o avanço da exploração ilegal de madeira. Valcir Rodrigues, de 51 anos, outro seringueiro da região, reforça a importância da sustentabilidade. Ele relata que, apesar de tentativas de invasão por madeireiros, a comunidade se esforça para manter a floresta em pé, garantindo um futuro melhor para as próximas gerações.
O declínio da demanda por borracha amazônica no final do século XX resultou em um aumento do desmatamento na região. No entanto, muitas famílias estão voltando a depender dessa atividade. A esposa e a sogra de Rodrigues, por exemplo, transformam o material extraído em artesanato, comercializado principalmente em Belém. Para Vanda Lima, de 60 anos, a oportunidade de trabalhar com borracha representa um novo começo após anos sem emprego formal.
Fomento à bioeconomia
Com um dos menores índices de desenvolvimento humano (IDH) do Brasil, o Marajó encontrou na seringueira uma alternativa para gerar renda. Zelia Damasceno, fundadora da Seringô, destaca que a empresa inicialmente incentivou a produção artesanal, mas percebeu a necessidade de ampliar o escopo da atividade. Com isso, a fabricação de calçados surgiu como uma solução para garantir renda contínua aos trabalhadores.
Atualmente, a unidade de produção em Castanhal, a cerca de 300 km da ilha, fabrica aproximadamente 200 pares de calçados diários, combinando borracha com pó de açaí. Com apoio do governo do Pará, o objetivo é expandir o projeto para beneficiar até 10 mil seringueiros na região, dentro de um programa de desenvolvimento sustentável alinhado à COP30, que ocorrerá em Belém.
Apesar dos avanços, Damasceno ressalta que ainda há desafios. Segundo ela, muitos jovens não se interessam pela atividade seringueira, o que torna essencial um trabalho de conscientização sobre a importância da preservação da floresta e do potencial econômico sustentável que a borracha pode oferecer.
Fonte: Folha de Pernambuco
Imagem: Canva